O frio da serra parecia atravessar as paredes rústicas de pedra e madeira daquele casarão que alugamos para o fim de semana prolongado. Era um lugar imponente, isolado entre os pinheiros, com poucas suítes e reservado exclusivamente para a nossa família. A chuva fina batia nas vidraças das janelas altas com um som ritmado, quase hipnótico, enquanto o piso térreo repousava na penumbra, aquecido apenas pelas últimas brasas que estalavam na lareira da sala principal.
Já passava da meia-noite. Todos haviam subido para os seus quartos, e o silêncio da casa era absoluto. Deixei o sofá da sala e comecei a subir os degraus de madeira escura com passos cuidadosos. Meu objetivo era simples e banal: buscar uma garrafa de vinho no frigobar embutido no hall do segundo pavimento.
No entanto, a mente humana é um terreno traiçoeiro. A maturidade costuma nos vestir com uma armadura de respeitabilidade, de bom mocismo, o papel do padrasto sensato, o homem de família que mantém a ordem e zela pelo bem-estar de todos. Eu vestia essa máscara há anos, com orgulho e rigor. Mas máscaras caem com uma facilidade assustadora quando o silêncio e a escuridão da noite nos pegam desprevenidos.
Ao caminhar pelo corredor do andar superior, descalço sobre o passadiço de feltro, percebi que a porta da suíte da ponta não estava totalmente fechada. Era a suíte de Camila.
Ela já era uma mulher adulta, dona de suas próprias escolhas, formada, independente. Contudo, na dinâmica daquela casa, o laço que nos unia carregava a formalidade velada de anos de convivência familiar. Ela era a filha da minha esposa; eu era o homem que ajudou a prover o teto. Essa linha divisória sempre fora clara, intocável, respeitada como um dogma.
A porta de peroba estava entreaberta por uma fresta mínima, não mais do que três ou quatro dedos. Por ela, vazava um feixe de luz morna e amarelada que cortava o chão escuro de tábua corrida.
Eu teria passado direto. Teria seguido até o frigobar, pego o vinho e retornado ao meu quarto se não fosse o som.
Não foi um grito ou um ruído alto. Foi um arfar curto, entrecortado, seguido pelo farfalhar suave de lençóis de algodão e um suspiro profundamente abafado.
Paralisei no meio do corredor. O coração deu um baque seco contra as minhas costelas, um choque elétrico que fez o sangue pulsar forte no meu pescoço.
"Dê meia-volta agora", a voz da minha consciência moral gritou em um sussurro mental de alerta. "Você é o padrasto dela. É a filha da mulher que dorme no quarto ao lado. Volte para a escada. Não estrague tudo."
Mas o desejo e a curiosidade mórbida não raciocinam. Eles operam em uma frequência mais primitiva, rasgando qualquer verniz de civilidade. Em vez de recuar, dei dois passos milimetricamente calculados para a frente, colando meu corpo à parede escura, até que meu olho direito estivesse perfeitamente alinhado com a fresta.
A visão lá dentro pareceu desacelerar o tempo.
A cúpula do abajur de cabeceira projetava uma luz dourada e acolhedora que desenhava os contornos da suíte. Camila estava deitada de lado sobre a cama king-size. Os lençóis brancos estavam desarrumados, empurrados para a altura do quadril. Ela vestia apenas uma camisa de linho leve e clara, completamente desabotoada na frente, deixando sua pele clara brilhar sob a luz fraca.
Ela estava completamente entregue a si mesma. Com a mão esquerda, cravava as unhas no travesseiro de penas, cobrindo metade do rosto para sufocar o próprio som. A mão direita percorria a pele nua do abdômen, descendo em movimentos lentos, precisos e famintos pela curva da coxa.
Meu peito subia e descia em uma respiração curta que eu precisei controlar desesperadamente para não produzir o menor ruído. O diálogo interno na minha cabeça virou uma tempestade violenta.
"O que você está fazendo aqui, seu canalha?", questionei a mim mesmo, sentindo um calor queimando meu rosto. "Se ela virar a cabeça e te vir pelo vão da porta, a sua vida acaba. A sua família rui nesta mesma noite. A confiança da sua esposa morre aqui."
E, no entanto, a visão daquela vulnerabilidade absoluta me acorrentava ao chão. Havia um encanto sombrio na ideia de ser um fantasma invisível, um espectador não autorizado invadindo a intimidade mais secreta de alguém que eu via todos os dias com roupas formais, conversando sobre trivialidades na mesa de jantar. Ali não havia disfarces, não havia a figura da "enteada". Havia apenas uma mulher em seu auge, entregue ao próprio prazer sem saber que compartilhava o ar daquele quarto com o homem que a observava na penumbra.
O ritmo dos movimentos dela começou a se acelerar. A camisa de linho abriu-se ainda mais com o balanço do corpo, revelando o contorno dos seios que subiam e desciam vertiginosamente.
Ela soltou o travesseiro por um segundo e deixou escapar um murmúrio dócil, arrastado e involuntário:
— Aah... meu Deus...
A voz dela era aveludada, impregnada de um desejo sufocado que fez minhas pernas fraquejarem. Ela mordeu o lábio inferior com força, fechando os olhos enquanto a cabeça tombava para trás sobre o colchão, expondo a linha longa e graciosa do pescoço, onde gotas tênues de suor brilhavam sob a lâmpada.
Eu não conseguia piscar. Sentia o suor frio escorrer pelas minhas costas. A sensação de perigo iminente — o risco de a porta mover-se com uma corrente de ar, o risco de minha esposa acordar e sair no corredor — agia como um combustível devastador. A moralidade tentava levantar a voz dentro de mim, mas era abafada pelo apelo estético e carnal daquela cena.
Camila dobrou os joelhos, cravando os calcanhares no lençol. A cadência de sua mão ficou frenética, desesperada.
— Isso... — ela sussurrou para a penumbra do quarto, como se falasse com um amante invisível. — Mais...
Aquelas poucas palavras ditas no vazio do quarto cortaram o silêncio do corredor como uma lâmina. Senti uma onda de calor subir pelo meu abdômen. A fantasia de que aquelas palavras pudessem ser direcionadas a mim, ou que o fantasma invisível no corredor fosse a razão daquele transe, cruzou minha mente como um delírio proibido e embriagante.
O clímax dela veio em uma onda visível de tensão muscular. O corpo inteiro de Camila se enrijeceu sobre a cama. As pontas dos pés se esticaram, os dedos das mãos se fecharam em punho no colchão e os olhos se fecharam com tanta força que vi pequenas rugas se formarem no canto de suas pálpebras.
Ela soltou uma expiração longa, trêmula e profunda, um gemido rouco que foi diminuindo aos poucos até se transformar em uma respiração pausada e pesada.
O corpo dela relaxou de vez. A camisa permaneceu aberta, cobrindo apenas as laterais de sua silhueta, enquanto a mão direita escorregou e repousou frouxa sobre o lençol.
A cena estava concluída. O transe havia passado, mas o impacto psíquico em mim era irreversível.
Girei o corpo com uma lentidão cirúrgica. Cada movimento do meu pé sobre o passadiço de feltro foi medido para não gerar o menor ruído na madeira. Recuei três, quatro, cinco passos na escuridão do corredor, afastando-me daquela fresta amarelada como quem se afasta de um crime perfeito.
Quando finalmente alcancei o hall e abri a porta do frigobar, a luz fria do aparelho iluminou meu rosto pálido. Peguei a garrafa de vinho, mas minhas mãos tremiam tanto que o gargalo de vidro bateu contra o prateleira, produzindo um pequeno estalo metálico.
Aproximei a garrafa do peito e respirei fundo, tentando me recuperar do turbilhão de culpa, voyeurismo e desejo que havia tomado conta de cada célula do meu corpo.
eu estava com tanto tesao que pensei que ia furar o short.
A viagem em família continuaria na manhã seguinte. Sentaríamos à mesa de madeira rústica para tomar o café da manhã. Eu passaria o pão para minha esposa, conversaria sobre o tempo na serra e olharia nos olhos de Camila enquanto ela servia o café. Ela agiria como a enteada dedicada de sempre, sem desconfiar de nada. Mas, para mim, o silêncio daquela casa nunca mais seria o mesmo. Eu agora era o guardião invisível do seu segredo mais íntimo, e a lembrança daquela luz amarelada me perseguiria a cada olhar trocado no jantar.
Comentários (0)
Faça login para comentar.
Seja o primeiro a comentar nesta história!